Dicas sobre como cobrir questões e povos indígenas

Tempo de leitura: 5 minutos
Objetivos

. Produzir conteúdos que respeitem a cultura, tradição e especificidades dos povos indígenas

. Pautar com responsabilidade questões e povos indígenas no seu meio de comunicação

. Produzir mais e melhores conteúdos sobre questões e povos indígenas

Referências

Samela Sateré Mawé é comunicadora indígena, ativista da Associação de Mulheres Indígenas Sateré Mawé (AMISM), na Zona Oeste de Manaus, e uma das apresentadoras do Canal Reload. Samela faz parte da Articulação dos povos indígenas do Brasil (Apib) e dá dicas sobre como comunicar as questões e povos indígenas de maneira respeitosa. Dentro da Énois, as pautas e questões indígenas perpassam as narrativas e discussões trazidas pela analista de distribuição Gabriella Mesquita, que também colabora com dicas de como cobrir o tema. 

O guia educacional online Reporting in Indigenous Communities, do jornalista Duncan McCue, traz um checklist básico com perguntas que devem ser feitas pelo jornalista a si mesmo e a sua equipe antes de produzir uma reportagem sobre questões e povos indígenas. Foi feito com base na realidade das comunidades indígenas da América do Norte, mas pode ser adaptado à realidade brasileira.

Resultados

. Ampliação da cobertura das questões indígenas localmente

. Produção de um banco de fontes de pessoas indígenas

. Mapeamento das comunidades indígenas no entorno do território coberto

. Maior proximidade com lideranças e organizações indígenas

Como medir

. Feedback de entidades e povos indígenas

. Auditoria de fontes nas reportagens produzidas

. Avaliação quantitativa sobre a cobertura de questões indígenas

Passo a passo

Preconceito e invisibilidade nas pautas. Intolerância, preconceito e discriminação ao tratar da diversidade da pauta indígena é reflexo do racismo e etnocídio que existe com essa população, em toda a nossa história e atualmente. É importante enfatizar que o nome deste preconceito é racismo porque a identidade indígena é uma cor (vermelha), uma etnia (grupo étnico indígena ao qual pertence ou a própria perda do conhecimento de sua identidade étnica) e um território (povo, caso saiba ou viva em um). É importante lembrar que este é um povo refém da herança do genocídio e também da escravidão brasileira. 

Marco temporal. O Brasil é terra indígena, então não devemos esquecer que os povos estão aqui antes da colonização do Brasil, por isso, sempre considerar quando necessário, a vida e existência da cultura indígena brasileira  e nunca usar termos como “descoberta do brasil” e sim “invasão”. Muitos povos indígenas lutam pelo direito da demarcação de suas terras reivindicando hoje o Marco Temporal da constituição de 88 que entrou em vigor de novo com o PL 490. Ou seja, é importante o jornalismo entender porque reivindicar o marco temporal é lutar por terra e direito à moradia e também pela reparação histórica com a existência dos povos. Que é de muito tempo antes da constituição.

Cuidado com a linguagem. Para falar sobre povos e questões indígenas, é fundamental saber quais as palavras corretas. Ter responsabilidade é não usar palavras como “tribo” e “índios” para se referir aos povos e territórios indígenas: o termo índio, além de carregar estereótipos, parece mencionar que eles vivem na Índia; Tribo, por sua vez, torna homogênea a composição desses povos. Também é preciso se certificar e escrever o nome correto de cada etnia. E ainda dispensar o uso de palavras como “selvagem, primitivo, extinto, miçangueiros” ou qualquer outra colocação que de algum modo se refira aos povos indígenas apenas no passado como se fosse uma população inexistente no presente ou que relativize práticas sagradas ou culturais das pessoas indígenas como suas artes.

Não generalizar. Além de usar os termos e nomes corretos, cuidado para não generalizar os povos indígenas. Cada povo tem características, cultura, língua e tradição próprias. Se interesse em conhecer sobre a etnia que você está reportando, pergunte ao próprio entrevistado, busque outras fontes indígenas ou pesquisadores sobre o tema e associações. Ao generalizar, você corre o risco de transmitir uma desinformação e invisibilizar uma realidade. Nenhuma pessoa indigena é igual a outra. Podemos facilmente cair no perigo da história única achando que uma pessoa indígena (seja jornalista, ativista, artista…) corresponde a todo o saber dessa comunidade. Isso também é racismo!

Estereótipos. O uso de uma palavra errada para se referir aos povos indígenas pode induzir a outro erro, o fortalecimento dos estereótipos, como o de que os indígenas são preguiçosos, não têm alma ou são sujos. A reprodução de estereótipos também incide na fetichização dos corpos das mulheres indígenas. 

Respeite o lugar de fala. Sempre que for falar sobre alguma questão índigena, respeite o lugar de fala. Procure organizações indígenas que tenham propriedade para falar. Pergunte a elas qual seria a melhor abordagem sobre determinado tema. São exemplos, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira.

Pergunte. Sempre que entrevistar um indígena, tome o cuidado de perguntar o nome e a grafia correta da sua etnia. Pergunte também como é a pronúncia, caso vá usá-la em áudios e vídeos. 

Consuma veículos comprometidos com a temática indígena ou produzidos por pessoas indígenas. Fortaleça a comunicação feita para e pelos indígenas assim como aquelas mídias comprometidas com as pautas dessas pessoas. Por meio deles, você saberá quais as pautas relevantes sobre o tema e como abordá-las. 

Nem tudo é sobre a Amazônia. Lembre que nem todos os indígenas moram na Amazônia, assim como nem todos os indígenas estão aldeados. Certifique-se de pautar também todas as nuances e temas relevantes sobre os povos não aldeados.

Faça um mapeamento. Para cobrir os povos indígenas localmente, é importante conhecer quais são e onde estão. Faça um levantamento de quem são os povos indígenas que habitam o seu estado, a sua cidade. Busque as lideranças, converse com elas, entenda quais as demandas que circundam a realidade delas.  

Espiritualidade. As pautas de questões indígenas devem manter o respeito à intersecção da espiritualidade indígena com as pautas políticas. Também não se deve estimular a apropriação cultural da espiritualidade indígena.

Manifestações. Por fim, manifestações de retomada de direitos e visibilidade da população indígena são MANIFESTAÇÕES. Não há selvageria e nem violência, os atos não devem ser tratados dessa forma. Há apenas uma retomada e busca por espaço, e cada grupo irá lutar e fazer isso de uma forma. Violenta foi a história de assasinato e evangelização agressiva que essa população vive desde a colonização brasileira. É possível repensar o caminho da pauta. Uma possibilidade é tratar da manifestação com contexto, mostrando, por exemplo, o que os povos indígenas estão reivindicando e o que lhe foi tomado.

Autorização para entrada nos territórios. Se a pauta for em campo, certifique-se mais de uma vez que têm autorização para entrar em um Território Indígena (TI). Para isso, é preciso pedir autorização da Fundação Nacional do índio (Funai). Além disso, é preciso respeitar as tradições, cultura, o modo de vida ali estabelecido e as orientações dadas pela liderança local. Não filme nem fotografe aquilo que não foi previamente acordado.

Busque formação. Procure fazer formações e estudar com antecedência para pautas sobre as questões indígenas. Um bom caminho é oferecer treinamento dentro das redações, buscar livros de referência ou cursos de jornalismo sobre a temática. 

Cuidado com as fontes. Não generalize os especialistas em questões indígenas. Há quem possa falar sobre sobre invasões de território na Amazônia, mas não saiba falar sobre as necessidades da população não aldeada em São Paulo.

Fontes para outros temas. Insira fontes indígenas em pautas que versem sobre outros temas, como saúde, educação, justiça, mobilidade urbana, economia e política. Procure saber quem são os especialistas em biologia, advocacia, finanças, etc, da sua região que são indígenas e entreviste-os para matérias sobre esses temas de forma geral, não apenas para tratar de pautas indígenas. 

Democratize o acesso aos seus conteúdos. No Brasil, nós temos mais de 274 línguas. Somente na região do Amazonas, são 25 línguas diferentes. Portanto, procure fazer reportagens que também estejam acessíveis a pessoas que falam idiomas além do português, principalmente quando elas estão contempladas nas matérias. Quando tratar de reportagens especialmente importantes para as populações indígenas, busque formas de fazer o conteúdo chegar nelas.

Produza junto aos jornalistas indígenas. Convide jornalistas indígenas para projetos colaborativos com a sua equipe, isso pode ampliar sua visão sobre os temas e gerar um conteúdo mais diverso, que contemple as necessidades e visões dos povos indígenas nas suas reportagens. 

Contrate jornalistas indígenas. A diversidade também passa por trazer jornalistas indígenas para dentro do seu veículo de comunicação. Eles conhecem a necessidade e as demandas, as pautas relevantes e podem contribuir para ampliar e sensibilizar o olhar dos demais colegas. 

Links

https://www.instagram.com/sam_sateremawe/

https://midiaindia.org/

https://ijnet.org/en/story/7-tips-non-native-journalists-covering-indigenous-communities

https://riic.ca/reporters-checklist/

https://mirim.org/

https://cimi.org.br/

https://pib.socioambiental.org/pt/P%C3%A1gina_principal

Descomplicando com Kaê Guajajara: O que você precisa saber sobre os povos originários e como ajudar na luta anti racista

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