Como encontrar financiadores para um projeto de jornalismo

Tempo de leitura: 6 minutos
Objetivo

. Encontrar fontes de financiamento diversas para o jornalismo

. Produzir projetos e produtos financiáveis

. Garantir a independência e a isonomia das produções jornalísticas

Referência

A Énois opera como Associação, mas nasceu como empresa. Em 12 anos, formou mais de 500 jovens das periferias de São Paulo e Região Metropolitana em jornalismo, produção audiovisual e comunicação, além de outros 4 mil jovens de forma online. Além disso, produziu mais de mil reportagens para veículos parceiros, desenvolveu documentários e conteúdos especiais. A Énois tem diversas formas de financiar cada um dos projetos, que envolve a busca de fontes que usualmente não costumam financiar o jornalismo. São 14 no total. Entre elas, está o financiamento direto de apoiadores pessoa física, mas também editais de incentivo à cultura e captação de recursos com empresas privadas.  

Resultados

. Viabilizar projetos com orçamentos pequenos e grandes

. Encontrar formas não usuais de financiamento

. Garantir independência financeira e editorial do jornalismo

Como medir

. Quantidade de projetos financiados e o impacto deles com financiamento externo

. Quantidade de pessoas que cada produto alcançou, o perfil dessas pessoas e as formas como elas reagiram com aos produtos  

. Relações estabelecidas com financiadores diferentes

. Renovação de contratos

. Crescimento das receitas e das fontes de financiamento

Passo a passo

Reflita sobre o seu projeto. Entenda o que é o seu projeto, quais os objetivos gerais e específicos dele, quais os públicos que pretende alcançar, onde está chegando e onde pretende chegar com ele. Isso ajudará você a criar um documento base, que poderá ser adaptado às demandas e editais de cada financiador. Mapear o alcance de cada objetivo e público, mesmo antes do projeto ser realizado, é uma boa forma de justificar a venda do produto para financiadores.

Faça um mapeamento. Levante como outras instituições de jornalismo são financiadas. Faça uma lista de quem são as instituições que financiam, quais os projetos financiados em cada uma e as formas que essas organizações de jornalismo encontraram para bancar seus projetos. Pense em quais das formas mapeadas poderiam financiar o seu jornalismo. A Énois listou 14 formas de financiar o jornalismo:

1. Editais públicos de cultura municipais 

2. Editais públicos de cultura estaduais 

3/4/5. Leis de incentivo à cultura Municipais, estaduais e federais (isso implica aprovar na Lei e captar com empresas)

6. Verba direta de empresas

7/8. Doações de Fundações nacionais e internacionais 

9/10 Editais nacionais e internacionais 

11 – captação de pessoa física via IR 

12 – captação de pessoa física por PIX 

13 – captação de pessoa física recorrente (mensalmente, por cartão ou boleto) 

14 – financiamento ou agenciamento de reportagens

15. venda de produtos

Tenha uma equipe. A captação requer um olhar direcionado, o conhecimento sobre legislações, além de tempo. É importante ter uma pessoa ou mais de uma pessoa da equipe, que entenda do jornalismo produzido por você, mas possa ser deslocada da redação para cuidar apenas da captação. Isso garante mais fôlego para ir atrás das instituições, mas ao mesmo tempo preserva sua independência editorial.

Tenha um orçamento. Tenha um orçamento pronto para o seu projeto, com os custos de recursos humanos, recursos materiais, grana de transporte, logística de distribuição e outros itens que considerar importantes para viabilizar a ideia. Faça uma lista do que é preciso para construir o projeto e quanto custa cada coisa, como no exemplo abaixo:

ItemQuantidadeOcorrênciaVl.UnitárioVl.TotalJustificativa
custos administrativos
Correios1115001,500.00Envio dos livros pelo Correio para os patrocinadores e pontos de cultura
Material de Escritório e de Consumo1211001,200.00Compra de materiais de papelaria e apoio para desenvolvimento do projeto
soma2,700.00
RH
Coordenação editorial112250030,000.00Responsável pela produção dos livros e guia
Designer1140004,000.00Profissional executor do material gráfico e para as redes sociais durante todo o projeto
Reportagem10760042,000.00Bolsa dos jovens repórteres para apuração e redação dos textos do livro e das redes sociais
Revisão de Texto1120002,000.00Profissional destacado revisão de textos doa guias
Edição de texto15300015,000.00Edição dos textos do livro e guia metodológico
soma93,000.00
Outras despesas
Impressão1500157,500.00
soma7,500.00
comunicação
Cartaz1012002,000.00Cartazes para exposição em locais específicos e nos eventos de divulgação
soma2,000.00

Um projeto de prateleira. Tenha pelo menos um projeto que pode ser desmembrado em diversos produtos, para ir adaptando-o a diferentes financiadores. Um mesmo projeto pode ser um livro, um podcast, uma reportagem, um evento, etc.

Negocie cotas. Você também pode fatiar o seu projeto entre vários financiadores, criando cotas para que cada um possa patrocinar uma parte, assim você conseguirá financiar projetos maiores e de longo prazo.

Fontes não usuais. Seu projeto é de jornalismo, mas será que ele poderia receber financiamento de fontes que, tradicionalmente, não são usadas pelo jornalismo, como as leis de incentivo à cultura, esportes, infância, direitos humanos e idosos? Busque as legislações de incentivo locais e nacionais, como a Lei Rouanet, e faça adaptações ao seu projeto para conseguir esse financiamento. Um exemplo é o Prato Firmeza, da Énois. É financiado via Lei Rouanet, como um projeto de cultura, Promac (municipal de cultura) e recebe investimento de uma fundação, a Fundação Cargill. Além disso, há também a venda de exemplares para arrecadar dinheiro de pessoa física.

Jogue com os interesses. A captação de recursos é também um jogo de interesses. Algumas instituições e empresas privadas podem apoiar seu projeto, mas você precisa mostrar para elas como isso se encaixa dentro dos interesses da própria empresa. Uma rede de supermercado, por exemplo, pode ter interesse em financiar um projeto que dialoga, diretamente, com empreendedores gastronômicos da periferia.

Diferentes tipos de aporte. As instituições que te financiam podem ter interesses diversos. Há financiamentos que prevêem sua influência no relacionamento do financiador com uma comunidade específica. É importante ter atenção, principalmente para que esse interesse não seja conflitante com o seu projeto. 

Cuide da independência editorial. A busca por financiamento implica em fazer concessões, muitas vezes, por isso é importante que você tenha definido quais são os valores editoriais e éticos inegociáveis pela sua instituição e sua equipe (não adianta vender algo que sua equipe não acredita). Tenha cuidado de colocar na assinatura do contrato e desde a proposta enviada a independência editorial como um desses parâmetros. Isso evitará ruídos ou tentativas de interferência no seu conteúdo mais adiante na parceria.

Contrapartidas. É importante ter algumas contrapartidas possíveis listadas na apresentação de venda do seu produto ou instituição. Coisas que você já sabe de antemão que não vão impactar sua independência editorial. Oferecer aos financiadores alguns produtos ou serviços, como palestras, vídeos institucionais ou formações, pode ser uma forma de fazê-los ter interesse em financiar seu projeto de jornalismo. 

Olhe para o seu entorno. Pense para quem você vai distribuir seu conteúdo, onde isso será feito. Fale com os comerciantes desse território, com ONGs locais, ofereça serviços a eles em troca de financiamento para o seu projeto. Você pode oferecer vídeos, produção de cartazes e anúncios, e, em contrapartida, conseguir dinheiro para custear a sua ideia.

Pense na distribuição. Ter um planejamento de distribuição do seu projeto ou produto ajuda na hora de vendê-lo. Você precisa criar uma narrativa que convença o financiador, então falar sobre quem vai receber seu projeto, quem será atingido por ele, ajuda muito. Ajuda, inclusive, a responder perguntas das empresas e financiadores. 

Linguagem. Um mesmo projeto pode ter justificativas diferentes para financiadores distintos. Procure saber quem é o seu financiador e dirija sua mensagem especificamente para ele. Estude a instituição antes de ir até o encontro para fechar o apoio.

Lembre dos seus contatos. Você conhece pessoas que podem ser contatos em possíveis financiadores? Algumas pessoas, inclusive da sua rede pessoal, podem ser intermediárias entre seu projeto e quem assina a liberação do dinheiro. Não tenha vergonha, entre em contato com essas pessoas e peça apoio.

Vá pessoalmente aos lugares. Se você acredita que uma determinada instituição pode financiar seu projeto, vá até a sede do local e procure quem pode falar com você.  Vá até os escritórios, recepções. Faça amizade com as pessoas que trabalham nesses espaços, antes de chegar no decisor você falará com elas várias vezes. 

Trabalho de longa duração. Se o seu projeto é a realização de uma reportagem, pode ser que num espaço de tempo de três meses você consiga financiamento. Porém, para projetos maiores, o mais comum é que o trabalho demore pelo menos um ano para funcionar. Por isso é importante que você abra várias frentes de financiamento, para não depender de uma única fonte. 

Cuide da qualidade do seu trabalho. Quando você faz um trabalho de qualidade, que chama a atenção, os financiadores têm mais interesse em te apoiar. Então, nunca abra mão de cuidar da qualidade do que você está entregando. 

Pense na sua instituição. Você começará a captar por projetos, mas deve ter como foco sempre o seu grupo produtivo, ou seja, a sua instituição. É interessante separar um valor, de todo recurso captado, para manutenção da sua organização. Os projetos precisam abastecer o institucional, para que o coletivo, a ONG, a organização siga existindo.

Busque parceiros e intermediários. Existem algumas instituições que trabalham intermediando o contato de organizações com financiadores. Converse com esses intermediários. Às vezes, eles encurtam os passos até você conseguir falar com quem vai assinar a liberação do dinheiro.

Fortalecimento institucional do veículo ou repórter. Inscrição em prêmios de jornalismo e iniciativas que fortalecem a marca do veículo ou do repórter dão força também ao portfólio e mais credibilidade.

Causas. Por mais que a organização não tenha uma causa específica, os produtos podem ter e normalmente financiadores se ligam a causas específicas quando vão patrocinar.  Essa pode ser uma forma também de atrair a atenção do financiador.

Tenha persistência. A captação é um trabalho que demanda persistência. Será preciso falar várias vezes com a mesma pessoa, defender mais de uma vez a sua ideia, por isso é preciso confiança no que você está fazendo.

A comunicação. Comunique bem aquilo que você está produzindo. Isso pode ajudar na renovação dos seus projetos junto ao patrocinador, quando ele vê o resultado daquilo que foi financiado.

Sua comunidade. Outra forma de captar recursos é com as pessoas físicas, com a sua audiência. Pense que quem te lê gostaria da continuidade do seu projeto, por isso poderia ser um apoiador direito. 

Mobilize a equipe. Ainda que nem todas as pessoas trabalhem na captação, todos os integrantes da sua equipe podem ajudar a encontrar financiadores. É importante que as pessoas saibam quanto custa a sua operação. Um caminho para isso é falar de dinheiro com a sua equipe.

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