Como colocar escuta e descolonização em prática no jornalismo

Tempo de leitura: 3 minutos
Objetivo

. Humanizar o processo de produção jornalística para equipes e entrevistados

. Mostrar que não existe só uma maneira de produzir jornalismo, nem só uma maneira de consumir jornalismo

. Ampliar os processos de escuta da audiência, da equipe, das fontes e de si mesmo durante a realização das pautas. 

Referência

Metodologia aplicada durante pesquisa para o projeto Reload, um canal de informações para jovens urbanos brasileiros formado por 10 organizações jornalísticas digitais: Agência Pública, Agência Lupa, Repórter Brasil, Congresso em Foco, Ponte Jornalismo, Énois, Colabora, O Eco, Marco Zero e Amazônia Real.  

Resultados

> Definição de linguagem, formato e equipe condizente com o público que se quer alcançar

> Fortalecimento da metodologia de pesquisa a partir da escuta do público

> Inclusão da escuta e descolonização como metodologia entre a equipe de pesquisa, que se organiza e desenvolve o trabalho a partir da escuta interna

Como medir 

> Perfil das equipes formadas 

>  Capacidade de autopercepção dos coletivos sobre suas formas de trabalhar, pensando diversidade, escuta e descolonização

> Quantidade e qualidade da escuta entre as pessoas da equipe 

> Perfil dos entrevistados e criadores de conteúdo, chamados para a segunda etapa da pesquisa

Passo a passo

Colocar pessoas no centro da produção. Para quem estamos falando define a equipe, a pauta, as perguntas que conduzem a produção, a linguagem, a abordagem, a grana que vai custar. É olhar para o jornalismo a partir de quem vai receber a informação para ter uma produção mais acessível, por isso, inclusive, a diversidade na equipe e nas fontes para que a produção seja mais diversa. 

Conversa com equipe. Sente com os integrantes da equipe para definir quais os parâmetros que irão guiar a produção. Isso ajudará a repensar a linha de produção jornalística, para produzir e distribuir jornalismo de uma maneira diversa e humanizada, reconectando o jornalismo com as pessoas. 

Algumas perguntas podem ajudar, como:

– Com quem queremos falar?

– Que linguagem essas pessoas usam?

– Onde podemos encontrá-las?

– Elas estão perto ou longe de nós? Como podemos nos aproximar?

– Quais as principais dúvidas e quais informações mais interessam a essas pessoas?

– Qual a forma mais acessível de fazer essa informação chegar a essas pessoas?

Parâmetros. Identifique que área da organização já exerce um trabalho de maneira descolonizadora e troque, aprenda com quem já faz e buscou caminhos internamente. Na Énois, por exemplo, exercitamos a humanização e a afetividade como eixos centrais do nosso trabalho jornalístico. O mapeamento afetivo na construção do Prato Firmeza, por exemplo, é o que embasa as pautas e fontes para o guia.

Estude e compartilhe aprendizados. Se nossa estrutura social e a forma como fazemos jornalismo está baseada em um processo histórico colonial, é adequado estudar sobre descolonização para seguir com o trabalho. A equipe pode ler livros para iniciar as reflexões, como Ideias para adiar o fim do mundo, de Ailton Krenak, e Memórias da plantação, de Grada Kilomba. Depois, realizar discussões em conjunto sobre as obras e aprendizados, sempre trazendo a ligação com o trabalho de produzir e distribuir jornalismo. 

Convide formadores. Convide comunicadores para compartilhar o trabalho de comunicação a partir de outras culturas. Eles podem dizer: como é feita uma notícia; como se relaciona com os ouvintes, leitores e espectadores; como distribuem; em quantas línguas produzem e distribuem. Essa troca possibilita olhar para o jornalismo sob outras premissas, outros paradigmas. Exemplos de veículos para acompanhar: Rádio Yandê e Rede Wayuri.

A escuta. A mídia ainda é feita por pessoas pouco diversas entre si e, portanto, com uma maneira de escutar muito restrita. Entender que existem outras maneiras de escutar  – entendendo de onde a pessoa vem, qual seu lugar de fala, suas dificuldades, trajetórias e interesses – é um novo olhar para o jornalismo. Escutar é abrir-se para novas maneiras de estar no mundo e fazer jornalismo. 

Entender incômodos. A equipe deve estar disposta ao deslocamento a partir da escuta e descolonização. Às vezes, escutamos algo que nos incomoda (como a identificação entre técnica jornalística e racismo, atitudes racistas na escolha de fontes, etc), mas é importante entender o porquê do incômodo para fazer os ajustes que precisam ser feitos antes de prosseguir. 

Considerar todas as partes envolvidas. É determinante pensar nas relações entre a equipe, o público, as fontes e os patrocinadores. Descrever a preocupação com diversidade na equipe; estabelecer espaços de apoio e escuta; construir  processos mais horizontais. O trabalho se torna mais cuidadoso e humano, isso torna as relações mais confortáveis e fortalecidas em todas as etapas – para dentro (entre equipe) e para fora (com as fontes e com o público).  

Links

Relatório do Reload

https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2020/12/07/lia-vainer-schucman-se-tem-um-pais-que-e-supremacista-branco-e-o-brasil.htm

  • Memórias da Plantação – Grada Kilomba, escritora, psicóloga, teórica e artista interdisciplinar portuguesa 
  • Ideias para adiar o fim do mundo – Ailton Krenak, líder indígena, ambientalista, filósofo, poeta e escritor brasileiro 
  • Descomplicando: o que você precisa saber sobre os povos originários e como ajudar na luta antirracista – Kaê Guajajara, cantora, escritora e arte-educadora.

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