Como cobrir as eleições de forma segura

Tempo de leitura: 4 minutos

Objetivos

  • Implementar políticas de segurança para os jornalistas
  • Mitigar riscos de ataques físicos e digitais durante a cobertura das eleições
  • Evitar ataques digitais, como doxing e phishing, contra jornalistas

Referências

As eleições são sempre períodos que mobilizam uma cobertura extensiva dos meios de comunicação, pois neles o papel da imprensa se torna ainda mais relevante na garantia de acesso à informação e na defesa da democracia. As eleições de 2022, em especial, serão realizadas em “um contexto de crescentes ataques a jornalistas, comunicadores e violações da liberdade de imprensa”, segundo várias entidades que assinaram carta divulgada no Dia Mundial da Imprensa, 3 de maio. O Redação Aberta 29 foi sobre o tema e contou com a participação de Bia Barbosa, coordenadora de incidência do Repórteres sem Fronteiras, e Paulo Talarico, cofundador e editor-chefe da Agência Mural. Bia deu várias dicas sobre o que fazer para mitigar ataques virtuais e físicos nesse momento e, assim, conseguir fazer uma cobertura segura para a redação e os jornalistas.

Resultados

  • Menos ataques virtuais e físicos
  • Risco reduzido de danos aos jornalistas e redações em caso de algum ataque
  • Possibilidade de concluir a cobertura sobre eleições sem incidentes

Como medir

  • Existência de uma política interna de cuidados
  • Quantidade de ações organizadas pela redação para proteger os jornalistas
  • Avaliando o resultado das ações realizadas para proteger os jornalistas durante as eleições

Passo a passo

Análise de contexto. É preciso entender o contexto político, social, econômico e cultural de onde você está trabalhando e como isso pode mudar no contexto eleitoral, considerando o perfil do grupo atuante e quem são os envolvidos nas campanhas eleitorais. Entender como os grupos que se envolvem no processo eleitoral do seu território são beneficiados ou afetados pela atividade jornalística durante a campanha te ajudará a saber como lidar com eles e a identificar possíveis ameaças. 

Converse com outras equipes e organizações. Conversar com organizações da e atuantes na comunidade onde você cobrirá as eleições, ou líderes comunitários, permitirá levantar casos concretos de incidentes no passado. Assim, você poderá mapear os padrões de violências contra jornalistas e comunicadores ocorridos em eleições passadas. 

Mapear padrões de violência. Para fazer a identificação, você pode tentar responder às seguintes perguntas: 

O que existe de comum nos episódios que já ocorreram e que pode se repetir?

Que tipos de ameaças os grupos mais fazem?

São somente ameaças ou há a concretização de algo?

São intimidações ou ocorrem violências físicas?

Quem são as pessoas agredidas, os jornalistas diretamente, pessoas do staff da empresa, mas que não atuam como repórter e/ou a família dos jornalistas?

Crie uma política/protocolo de segurança. Elenque um conjunto de medidas e procedimentos pactuados na redação, considerando realidade, tamanho da equipe, quantidade de recursos, tipo de cobertura, para prevenir e enfrentar ameaças que possam acontecer. Isso precisa ser adaptado a cada contexto, não existe uma regra. 

Tenha uma rede de apoio. Identifique quem são as pessoas e organizações que você pode recorrer caso aconteça uma agressão. Quem pode dar apoio jurídico, que recursos e capacidades você pode em casos de emergência? Monte uma lista e distribua para todo mundo da redação.

Avalie os riscos.  Mensure se os riscos que você identificou são válidos e aceitáveis diante do ganho editorial relacionado ao conteúdo produzido. Se o risco for muito grande, talvez seja melhor não fazer a reportagem. 

Pensar no credenciamento. Avalie, em cada pauta, se é melhor credenciar ou não credenciar a equipe. Há casos em que o credenciamento é fundamental para proteger a equipe, mas em outros casos estar identificado pode expor ainda mais o jornalista, como no caso de determinados protestos.

Conheça o perfil dos jornalistas. Pense no perfil dos jornalistas da sua equipe, há pessoas que podem sofrer mais riscos que outras em determinadas coberturas eleitorais. Questões como experiência prévia e gênero podem te ajudar a definir quem mandar a campo. Também é preciso, a partir disso, avaliar a necessidade de algum equipamento especial, como um colete a prova de balas, máscara de gás, kit médico, etc.

Cuidado com a comunicação. Articule uma forma segura de estar em permanente contato com o jornalista que está em campo, para acompanhar o trabalho feito em qualquer momento e fazer avaliações de contexto em tempo real.

Cuide dos dados digitais da redação e dos jornalistas. É importante ter backup de todos os arquivos dos computadores e celulares da redação e dos jornalistas. Para isso, também é preciso avaliar em qual lugar é mais seguro guardar esse backup, se na nuvem ou num dispositivo portátil de algum jornalista. Se é ideal guardar na redação ou em um lugar externo o material.

Redes sociais. Quando for a campo, evite sair com o celular pessoal ou mesmo um celular da redação, onde você esteja logado em redes sociais. Se precisar fazer isso, saia de todas as redes sociais, para evitar que os seus dados sejam expostos em caso de roubo ou perda.

Pós-cobertura. A depender do conteúdo que será publicado, avalie se o melhor é publicá-lo de forma individual, em nome da redação ou de forma coletiva, pois isso dificulta para uma fonte saber quem apurou as informações e quem tem os dados. Também vale fazer coberturas colaborativas entre redações, fazer com que uma mesma matéria saia em vários veículos tira o foco de um determinado local ou comunicador.

Não responder a ataques digitais coordenados. Geralmente, quando esses ataques acontecem, quem os faz muitas vezes quer gerar engajamento e amplificar uma mensagem. Respondendo aos ataques, você pode acabar contribuindo para isso. 

Relate os ataques digitais às plataformas. Mesmo que elas não respondam a você, reportar às plataformas digitais onde o ataque ocorreu é uma forma de documentar os ataques. Com isso, organizações sociais também conseguem fazer pressão pública para que as plataformas tomem medidas mais efetivas para toda a classe jornalística.

Documento o ataque digital. Quando o ataque ocorrer, salve prints, links e outras coisas que possam te ajudar a identificar o autor, a data do ocorrido, a origem, a mensagem e a plataforma onde ocorreu. Isso vai te ajudar em processos de denúncia às plataformas, à polícia ou até de judicialização, se for o caso.

Cuidado com as senhas. Procure ter senhas longas, fortes, com letras, números e caracteres especiais, que não permitam ser descobertas com facilidade. O ideal é também ter senhas diferentes para dispositivos e plataformas diferentes. Caso você tenha dificuldade de memorização, pode usar um gerenciador de senhas para te auxiliar.

Ative a autenticação de dois fatores. Isso possibilita uma dupla verificação e, em caso de que uma senha seja quebrada, haverá ainda outra camada de proteção para os seus conteúdos. 

Avise a redação e amigos e familiares em caso de ataques digitais. Isso deve ser feito porque ataques digitais também costumam ser direcionados à rede estendida do jornalista ou comunicador. Dessa forma, todo mundo consegue se proteger. 

Procure organizações que possam te dar proteção jurídica e física. Há algumas organizações que trabalham na defesa da liberdade de imprensa e tem projetos de defesa de jornalistas ameaçados, como a Artigo 19, Repórteres Sem Fronteiras, o Comitê de Proteção dos Jornalistas e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

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