Como ajudar governos a melhorar a coleta de dados sobre violência contra a mulher

Tempo de leitura: 4 minutos
Objetivos

. Identificar falhas em bases de dados sobre violência contra a mulher

. Interpretar corretamente dados sobre violência doméstica e contra a mulher

. Qualificar as informações

. Embasar estratégias de enfrentamento da violência por parte da sociedade civil, gestores públicos, jornalistas, voluntários e demais interessados no tema

Referência

A série de reportagens “Um vírus e duas guerras”, um levantamento inédito realizado no Brasil para monitorar casos de feminicídio durante a pandemia de Covid-19, foi realizada por sete mídias independentes (AzMina, Amazônia Real, Agência Eco Nordeste, #Colabora, Portal Catarinas, Marco Zero Conteúdo e Ponte Jornalismo). O levantamento de dados sobre feminicídio no país considerou três quadrimestres e resultou em um relatório sobre os desafios enfrentados durante a produção das reportagens. O material traz sugestões de melhorias na coleta, organização e disponibilização dos dados relativos à violência contra a mulher para a imprensa e a sociedade.

Resultados

. Conseguir identificar falhas nas bases de dados sobre violência contra a mulher

. Basear legislações e decretos municipais de apoio às mulheres em situação de violência durante a pandemia

. Mudar a forma como governos divulgam dados sobre violência doméstica

. Noticiar grupos sub representados em dados de documentos oficiais 

Como medir

. Auditoria das reportagens que usam bases de dados públicas

. Impacto em legislações e decretos governamentais

. Mudanças de políticas públicas baseadas nas reportagens

Passo a passo

Identificar as falhas nas bases de dados. Para propor sugestões, primeiro você precisa identificar o que a base de dados não está te respondendo para, depois, apontar as incoerências. Isso é feito a partir de um bom trabalho de entrevista dos dados, de sistematização das informações elencadas em cada planilha recebida/encontrada nos sites dos governos. 

Faça um recorte de diversidade ao olhar uma base. Ao olhar uma base de dados, faça sempre uma análise do ponto de vista de raça, gênero, idade, território do crime. Isso pode revelar as nuances que mostram uma população mais vulnerável à determinada violência ou um território onde mais ocorrem casos de feminicídio, por exemplo.

Documente o processo. Documente todo o passo a passo de concepção da sua pauta, desde o momento da ideia, até como foi desenvolvê-la, os desafios enfrentados no acesso e análise de dados, etc. Nesse documento, liste todas as falhas encontradas nas bases de dados usadas, onde elas estão, como se apresentaram, o que você acha que poderia ser feito para mitigar ou evitar esse problema em coletas posteriores.

Se preocupe com as soluções. Pense que as suas sugestões podem amparar não só a cobrança punitiva dos crimes, mas também a busca de soluções para ampliar a prevenção da violência contra a mulher, para evitar que os casos cheguem a situações graves e definitivas, como o feminicídio.

Prestação de serviço à sociedade. Mostrar que é possível coletar dados de uma forma melhor traz vários benefícios ao jornalismo – e o impacto dele na sociedade. O primeiro deles é que, se houver uma eventual correção, você poderá fazer coberturas mais qualificadas sobre o tema, denunciar mais questões de forma embasada e ser mais transparente nas produções. O segundo é que você consegue gerar uma mudança de cultura dentro do governo, que te posiciona como um jornalista que participa ativamente das discussões sociais do território coberto.

Busque especialistas. Entre em contato com especialistas e apresente a lista de falhas que você identificou nas bases, além das questões que as suas reportagens apontaram e construa com eles uma lista de possíveis soluções para ser encaminhada aos órgãos governamentais (municipal, estadual e federal).  

Olhe para os orçamentos das cidades. Veja quanto os governos têm para gastar com ações públicas para lidar com a violência de gênero, isso poderá ajudar você a elencar inclusive quais seriam as soluções de acordo com as características de gastos de um governo em específico.

Exemplos de proposições. O relatório da série de reportagens “Um vírus e duas guerras” trouxe algumas proposições para os governos, a partir do que foi apurado e identificado pelos jornalistas. Em versão resumida do que foi escrito no relatório, são elas:

  1. Padronização das informações coletadas. Boa parte do país ainda não tem acesso aos dados sobre violência doméstica. A existência de uma padronização nacional é essencial para o trabalho de monitoramento das violência contra a mulher. A publicação de informações como idade, sexo e profissão, por exemplo, pode facilitar a identificação de vítimas em municípios pequenos, por isso, o recomendado é fazer a divulgação quantitativa de casos por cidade e separadamente divulgar os microdados com as demais informações detalhadas. É importante que o estado não deixe de publicar a informação relevante como “a quantidade de mulheres vítimas de feminicídio nas áreas rurais do Estado”, mas o detalhamento deste conjunto não é urgente, podendo ser publicado num outro período.
  1. Divulgação de microdados. A divulgação de dados detalhados – conhecidos como Microdados – atende padrões internacionais de abertura de informações e permite análises, comparações e projeções mais precisas, complexas e informativas. Vale ressaltar que é possível fazer essa abertura, respeitando a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LDPG), que entrou em vigor em setembro de 2020. Nesta sessão, o relatório trouxe algumas sugestões para abrir um conjunto de Microdados, no Toolkit – Modelo Básico para Microdados Violência Doméstica, inspirado no Toolkit #1 – Transparência Covid-19 da Open Knowledge Brasil.
  1. Transparência na divulgação. A coleta de dados de maneira uniformizada e completa é essencial, mas também é de suma importância que a população possa ter acesso a essas informações de forma transparente e ágil. Recomendamos fortemente a divulgação dos dados coletados nos sites dos órgãos estaduais de maneira acessível, logo que sejam tratados e computados.
  1. Desburocratização ao acesso. O acesso à informação é um direito dos cidadãos e cidadãs brasileiros e é de interesse geral que esse acesso se dê da forma mais simples e transparente possível. Se não for possível a disponibilização dos dados online, recomendamos que o relacionamento com a imprensa seja feito de maneira clara e com o mínimo de burocracia possível.

Acompanhamento das proposições. Uma parte importante do processo é acompanhar o que o governo fez com as proposições entregues pelos jornalistas. Isso pode ser feito por meio de matérias, fazendo uma cobertura periódica do que ocorreu; deixando o relatório aberto no seu site para consultas públicas; mobilizando coletivos e organizações envolvidas na causa ou classe interessada; e também noticiando as próprias entregas dos documentos e protocolos nos referidos órgãos competentes.

Links

https://azmina.com.br/wp-content/uploads/2020/12/Relat%C3%B3rio-Um-v%C3%ADrus-e-duas-guerras-2.pdf

https://docs.google.com/spreadsheets/d/1G4LE8vLzJLKL1JmlcZSBoW6t1JEtKfEPr8Z-FGb0Mio/edit#gid=1132363805

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